sábado, julho 23, 2011

TEU JARDIM

Campo sou, de pó e de terra,
em que sementes caem e germinam.
Pequenas, tornam-se baobás,
que me roubam águas,
que me tolhem forças,
que me secam sem dó.

Mão sou, de carne e sangue,
que limpa a terra de impurezas,
que poda o mal que germina,
semeado de noite pelo sabotador,
que cerca o terreno e impede a invasão.

Hei de me tornar jardim puro,
em que habitam apenas flores,
e não pragas e abrolhos,
em que haja abundante água,
e não óleos e venenos.

Hei de me orgulhar dos caminhos,
dos pequenos labirintos,
feitos para propiciar deleite,
para a alegria de crianças
que brincam e correm entre eles.

Um jardim de Deus,
uma arte sem par,
hei de me tornar.

Eis que o tempo passa,
e todos os dias uma nova flor nasce.
Mesmo que tenha de romper a terra,
mesmo que tenha de ferir sua pele,
uma nova flor nasce,
de raízes teimosas,
de caule tenaz,
de pétalas tímidas.
Não tem medo de resplandecer ao Sol,
que tépido, pela manhã,
acaricia suas belas cores.

Sou jardim de Deus,
sou cuidado por Ele,
Cada uma de minhas plantas é para seu louvor,
cada uma de minhas árvores são exultação.

Não se engane: todo equilíbrio é precário,
é umidade, sanidade, estrutura e zelo.
Sou um jardim, e tu és mão de Deus.

Em teu cuidado sou belo e viçoso.
Não te descures de mim, de meus dias.
Em teu cuidado prospero,
em tua ausência decaio.

Eis que sou teu jardim,
habitação perpétua e sempiterna.
Eis que sou tua casa,
morada de alegria e deleite.

Olha-me como teu jardim.

MEMÓRIA

Memórias são estrelas.
Mantêm seu brilho,
mas não existem mais.
São meros fachos de luz.
Há muito deixaram de existir,
se é que alguma vez existiram.

Memórias são ilusões,
sonhos de um tempo improvável.
Muitas vezes, mais do que se quer,
são lembranças de um tempo futuro,
uma condição que nunca houve,
uma constelação que nunca existiu.

Se memórias são estrelas e ilusões,
constelações são projeções de olhos tolos,
fantasias inventadas para parecerem reais.

Minhas memórias são obscuras.
Mostram-me minha ingenuidade.
Mostram-se testemunho cruel,
predicação insistente do mal.

Livra-me, ó Deus, do que me consome!
Abre meus olhos,
me faz sábio como o tempo.
Não suporto mais ilusões!

LETRAS

Volto às minhas letras,
pequenas gotas que destila minha alma em dor.
São elas límpidas, algumas doces, outras amargas,
mas são genuínas, e verdadeiras,
e nunca mentem.
(Mesmo que eu quisesse,
não mentiriam nunca.)
São um refúgio, um templo, um santuário.
São elas o altar
em que cada elemento é posto diante de Deus,
em que cada ato é santificado ou descartado,
em que as orações lhe são oferecidas,
em que me encontro com meu Pai.
Não te assustes com minhas letras.
Elas são o espelho de minha alma,
de minha alegria e minha dor,
de meu amor e minha angústia.
Mas quando elas existem,
eu existo, eu falo, eu grito, eu canto!
Minha voz não se cala quando eu destilo letras.
Quando silencio, estou doente.
Preocupa-te com isto:
se me calo,
estou me afogando,
sem que ninguém perceba,
nem eu mesmo.

NOITE

Um sonho se torna real:
liberdade.
Começa dentro do coração,
nasce da alma.
Ao teu lado, a conheço.
Tu me chamas, e dizes:
- Vem! Eu sou real!
Estou ao teu lado.
Juntos, percorremos desertos.
Juntos, vencemos exércitos.
Não há medo, não há temor.
Se permaneces comigo,
a noite não oferece perigo,
e o dia não é quente demais.
Meu coração arde em brasa,
clama por tua presença.
Teu amor me revigora,
a certeza de teu amor me mantém.
Em ti conheci a paz,
contigo aprendi o que é ser livre.
Por mais intensa a tormenta,
por mais escuro o céu,
por mais longo o caminho,
por mais alta a escarpa,
nada me afastará de ti.
Pois teu amor é escudo;
teu carinho, alimento;
teu sorriso, sol;
teu corpo, esteio;
tuas mãos, suporte.
Estou contigo.
Não tema.

FUSÃO

Se eu fosse uma nuvem,
minha alma seria a água.
Choveria, sereno, calmo,
sobre terras secas,
fazendo-as florescer,
viçosas, alegres,
fazendo-as olvidar tempos secos,
ventos secos,
casas vazias,
quintais sem brincadeiras.
Mas sou mais que nuvem,
sou mais que água.
Minha alma é criação e caos,
contrários originários do devir.
Destruo a terra crestada,
rompo fendas na rocha,
para que sangre a vida
nas cicatrizes do solo,
e o fluxo interrompido
se torne fonte de vida.
Faço de meu riso contágio.
Faço de minha esperança fé.
Transbordo meus limites,
fundindo-me contigo em amor
Tu te tornas parte de mim,
alma única,
fogo e ar,
tormenta e calmaria.
calor e energia.

BORBOLHAS

Confio em teu amor.
Confio em meu amor.


Nada me deu tanto,
nada me fez tanto.

Tornaste-me um titã, capaz de mover montes.
Fizeste meus braços vigas,
pernas, colunas magníficas.
Olhos se transformaram em sóis,
e a voz moribunda e débil se fez trovão.

Todas as distâncias se fizeram pequenas,
todos os dias se fizeram pequenos minutos,
instantes velozes, segundos fugazes,
caminhos áridos que me conduzirão a ti,
de uma vez para todo sempre.

Nada antes de ti foi tão intenso,
nem amores, nem anseios,
nem medos, nem terrores.

Nada mais é como antes:
O céu agora é azul
e chora lágrimas de alegria!
O mar agora tem ondas,
em que singra meu barco impetuoso!
O verde das águas agora é pleno,
e acaricia minha alma desde suas raízes.

Confio agora no tempo, e na cura de toda dor.
De novo, vejo luz depois de tanto tempo vendado.
Somente sombras durante muito tempo vi,
e em trevas profundas, em angústia vivi.

Tu és a plenitude de meus dias,
o encanto de estar vivo...

sábado, dezembro 18, 2010

VENTOS

Tudo tem alma.
Tudo pulsa, vibra.
Silva em ventos rápidos,
corre em trilhas invisíveis.

Minha alma inquieta,
descansa no vento,
repousa no tornado.
Não te assustes com suas voltas.

Vento e voltas são próximos, afinal.
Tu és vento,
tu és revolta,
e não te deixas aprisionar.

Ventos, voltas, vultos
são todos inevitáveis.
Também as reviravoltas,
quando te tentam prender.

Minha alma revolta,
seu descanso é a guerra.
Sua paz é liberdade,
suas armas são suas revoltas.

Vento, voltas, revoltas.
Basta de cadeias,
basta de ilusões e mentiras.
Tolo é quem busca reter o vento.

A ORAÇÃO DE ARJUNA

Derramei lágrimas nas rodas de meu carro de guerra.
Limpei-as da lama, do sangue, do fel,
destilados e vertidos por se trilharem campos nus.
Implorei aos céus clemência,
que me poupassem da barbárie.
Ouvi, simplesmente:
"Se você não lutar nesta batalha do bem sobre o mal,
você irá fracassar no seu dever,
perderá a sua reputação como um guerreiro,
e incorrerá em pecado por não realizar a ação correta."
(GITA 2.33)
Meu braço se levanta,
depois de desistir da luta,
depois da morte de meu filho.
Não abdico da vida,
não desisto de Dharma.
Que todos os Anjos me acompanhem,
nesta guerra que encetam contra mim.
Ainda que caia, levantar-me-ei,
pois não desisto de Dharma.
Ainda que chore, as lágrimas se secarão,
pois não desisto de Dharma.
Que o Deus Altíssimo guie meus passos,
faça fortes minhas pernas,
firme, meu tronco,
hábeis, meus braços,
e que Seu Filho me dê a visão dos sábios,
para que, de minha fraqueza,
resplandeça Seu poder infinito.
Não desisto de Dharma.

sábado, outubro 02, 2010

SAUDADE

Onde estão os lábios que beijam os meus?
Onde, as mãos que aquecem meu rosto?
Onde, o corpo em que navego em ondas?
A saudade aperta como tenaz,
ferindo meu coração já exausto,
impiedosa e cruel senhora de mim.
Faz de minha alma mero brinquedo,
que minha amada almeja sem cessar,
como mar que anseia a terra acariciar.
Tempo de saudade é tempo de dor,
tempo de espera, tempo sem cor,
em que a crua escuridão ofusca.
Saudade é vontade de tempo,
Vontade sem fim de alguém,
Que nunca deveria se distanciar ou partir.
Onde estáis, minhas delicadas e alvas mãos?
Onde, vós, rubros lábios, quentes e doces?

TANTO

Te amo tanto,
te canto tanto,
te beijo tanto,
com tanto encanto,
que nem sei o quanto!

Sei só que é muito mais
que a altura do céu,
que a profundidade do mar.
Mas só que não é mais
do que eu ainda vou te amar.

DESPERTAR

Nasce o dia,
morre a noite.
Dormem as estrelas,
a lua,
nuvens de prata.
O dia ofusca,
aquece,
abrasa a pele,
queima meus olhos.
Não sabia o que me cercava:
um deserto morto.
Aves de rapina.
Eu, em minha ilusão,
julgava-me em um paraíso.
Ouvia águas onde só havia areia.
Em que tocava, sentia sedas,
onde havia somente cardos.
Tanto tempo,
em olhos fechados,
em sentidos sedados,
tanto tempo...
Queimam-me os olhos,
desacostumados ao dia.
Mal consigo abri-los,
mal permaneço em pé.
Hei de vencer o deserto,
hei de romper seus limites,
suas cadeias áridas e estéreis!
Não há vida em suas fronteiras,
somente parasitas.
O milagre já começou:
meus olhos se abriram,
minhas pernas já andam.
A morte chega ao fim,
e não a vida.
Acordei.

domingo, agosto 08, 2010

AURORA III

Minha poesia nunca mais será
deserto em meu coração.
Será, para sempre,
tua morada,
tua casa,
teu lar.
Nunca mais deserta,
nunca mais vã.
Como estrela,
jamais deixará de brilhar.
Será, para sempre,
adornada em pérolas
e esmeraldas,
por ti,
para ti.


HOJE

Hoje,
estar com você,
viver nosso tempo,
passado e presente,
viver nosso futuro,
extrapolar o tempo,
a espera,
a insanidade dos minutos
e segundos...
estar com você dá sentido
ao dia e à noite...

CALMARIA

Meus dias sao teus,
minhas noites te dou.
Minha alma,
meu espirito,
o ar de meus pulmoes,
a cor em meus olhos,
a musica em meus ouvidos,
nada disso existe sem ti.

quarta-feira, julho 21, 2010

AMANHÃ

Um dia, uma noite.
Um tempo, breve tempo.
Hoje, durmo só.
Amanhã, ao teu lado.
Amanhã, ao fim da noite.
Hoje, sonho contigo.
Amanhã, acordarei em teus abraços.

COLHEITA

Muitas manhãs nasceram,
alegria, carinhos, aromas.
Muitas noites nos cobriram,
risos, lágrimas, sonhos.
Ao teu lado aprendi
coisas que ninguém diz:
que o mar não seca,
enquanto houver chuva;
que o oceano sempre é mais
quando não se dá fronteiras.
Acordei para o amor,
depois de muito chorar,
perdido na solidão,
solto nos ventos da noite,
Acordei para a vida,
quando tocaste meus olhos,
quando beijaste meus lábios,
quando te mostraste a mim.
Viver se tornou plenitude,
amar se tornou água,
ar, alimento, sustento,
Em ti, encontrei o paraíso...

LEMBRANCINHA

Você é linda sempre
e eu sempre
vou fazer isto: 
Eu te acho linda
 de cabelo grande;
 de cabelo curto.
E sempre vou lembrar quão linda 
Você é de qualquer jeito.

quarta-feira, junho 23, 2010

O CHAMADO

Ariana, tão luzente Ariana,
venha a mim tua coroa,
desgarrada de meu céu.
Tua morada é meu corpo,
tua cama, o meu leito.
Vem, para que conheças a paz,
a derradeira paz de me pertencer.
Nada terás distante de mim,
mas somente a infindável labuta,
a dor de viver só, sem meu amor,
sem meus dedos e entranhas.
Sou teu leito, sou teu sonho vivo.
Estou sempre presente em ti.
Sentes meus carinhos em teus cabelos,
minhas mãos em teu corpo branco,
meus lábios em teus lábios róseos e vermelhos?
Não cessarão jamais.
Ainda que distante, sentes meu calor
em teu pescoço e tuas coxas?
Não te aflijas, nada temas:
o futuro traz o dia, a noite passará.
Se tens fé, confia, e verás o Sol nascer.
Edificarei tua ilha como palácio
e nela habitarei por todos os tempos,
completando-te,
preenchendo-te,
inundando-te com minha alma inteira.
Hei de tornar-te minha por todos os séculos,
e transformar tuas lágrimas em pérolas,
teu suor em brilhantes,
teus olhos em esmeraldas refulgentes.

domingo, junho 20, 2010

LINDEZAS

A cor da tua pele disputa
com a cor dos teus olhos,
A cor da tua boca disputa
com a cor de teus seios,
que também disputa
com a cor de tua flor.
Acaba tudo lindo,
mas tu és sempre mais.
A tua silhueta disputa
com a beleza das montanhas,
que perdem sempre
em encanto e majestade.
As ondas e calmarias de teus cabelos
disputam com a dança do mar,
que acaba perdendo sempre,
porque não sabe cantar...

domingo, junho 06, 2010

POEMA INCONSEQUENTE

Sou eu teu cantor,
aquele que por ti louva a vida,
que percorre as cidades a laudar-te
para que saibas de meu perpétuo amor
Sou eu teu clamor,
aquele que suplica abrigo em ti,
no recôndito de teu coração enternecido
no íntimo de teu leito adornado em véus.
Sou eu teu amor,
aquele que te faz viva, mulher,
que te conhece em véus e pelos, nua e bela,
que te nutre e inebria com o néctar divino do amor.
Sou eu teu poeta,
último de meu nobre clã.
Tu és minha eleita, musa perfeita,
sempiterna amada desse seu leal cavaleiro.
Sou eu teu navegante,
aquele que singra as ondas de teu corpo,
que se perdeu em tuas profundas e verdes águas,
e que em teus olhos abissais encontrou a felicidade.
Não temas: de ti não partirei.
Estarei à tua janela, pelo tempo que quiseres.
Sou teu fiel guardião, a velar-te por todos os séculos,
a esperar alegre por tua voz, pelo teu canto, por teu encanto.

quinta-feira, maio 27, 2010

ALMA EM CORRENTES

Alma em chamas,
renascida dos infernos,
desperta e vê ao teu lado,
eis que tua amada jaz em laje fria,

Alma em pedra
lábios sem o rubro sangue
olhos fechados em doce sono,
eis que não há mais dança nem riso.

Alma em desvairio,
perdida sem mais rumo,
escolhe tua afiada adaga,
ceifa tua vida que acabou por fim.

Alma infantil,
que nada sabe do amor,
que fizeste em tua loucura,
que buscaste em tua insanidade?

Agora, alma tola,
eis, tua amada desperta,
vê a adaga cravada em teu peito,
e clama aos céus para que voltem teus olhos!

Alma conspurcada,
eis, que teu sangue se esvai!
Clama para que voltem as areias do tempo,
para que não exista o ato insensato que fizeste!

Alma condenada,
teu algoz não lhe dará paz,
por toda a eternidade, serás um sopro,
uma chama, centelha de esperança e vida,

Alma de Prometeu,
a quem jamais se dará paz,
fadado a amar perpetuamente,
e a cada dia ser espedaçado em fúria e dor.

segunda-feira, maio 17, 2010

DOR DE AMOR

Dor de amor não sara.
Dói sempre...
Dói na tua ausência,
dói em tua presença.
Dói sempre...
Dói quando não te vejo,
dói quando olho tuas fotos.
Dói sempre...
Dói quando não te ouço,
dói quando escuto tua voz.
Dói sempre...
Dói no frio de minha cama,
doi no calor de minha paixão.
Dói sempre...
Dói na calma do mar,
dói na turbulência de minha alma.
Dói sempre...
Dor de amor não...
Sara, não...

domingo, maio 09, 2010

DORME

Dorme.
Nada conheças do céu,
nada saibas da Terra;
apenas dorme.
Não abras teus olhos,
pois nada verás além do vazio,
E ao teu redor,
somente o deserto.
Exílio.
Solidão.
Esquecimento.
Eis teu quinhão,
tua sorte, teu azar.
Nada te nutre,
nada te alimenta.
Apenas dorme.
Definharás,
inevitavelmente,
enquanto dormes.
E se morreres,
antes disso,
saiba que foste o mais belo,
o mais puro,
o mais pleno amor
que se aninhou em meu peito.
Nenhum outro se fez tão forte,
tão pleno em coragem,
tão
cheio de vida,
como tu.
Mas dorme, agora,
pois nada podes fazer
para trazer tua amada de
volta.
Tua Eurídice se foi,
e não mais volta.
E a ti,
ó néscio amante,
restam os lamentos,
a dor e o pranto,
de amar sem fim
e nem limites,
sem tempos
e sem fronteiras
aquela que não te perdoou,
sem saber que te perdia.

quinta-feira, abril 22, 2010

NÁUFRAGO

Tuas palavras ecoam em meus ouvidos.
Relembro cada uma, sem cessar.
Leio e releio cada letra,
cada vírgula,
tentando sorver-te por inteiro
nas pequenas frases que escreveste.
Mas outras vozes me dizem,
em alto tom:
"Nada sabes.
Foste exilado.
Não tens mais lugar no país de tua bela."
Não posso pensar em outra indagação:
Por que?
Que te moveu a isso,
a me ter tamanha abjeção?
Sou eu dor para ti,
mácula inevitável em tua memória?
Que me tornei para ti?
Tua triste voz pouco fala,
tuas palavras são curtas,
velozes, necessárias.
Acabei-me para ti?
Sinto como se minha morte
chegasse mais cedo do que imaginei.
Minha poesia se torna meu refúgio,
o único abrigo em que posso existir.
Este não é apenas mais um poema.
É um clamor por tua presença,
por tua palavra de amor,
por teu olhar límpido!
Minha voz se tornou como a de um náufrago,
perdido, sem tábua nem beirada,
a esperar por salvação...
Preciso de ti

terça-feira, abril 20, 2010

DECLARAÇÃO DE AMOR

Tu és uma realidade nunca antes imaginada,
Mas tantas vezes sonhada em noites sem lua,
Um sonho impossível que se tornou verdade,
Bela musa de meus cantos solitários.

Tu te aproximaste exuberante, viva e bela,
Cativaste meus olhos com teus olhos verdes,
Tornou-me um titã, apto a lutar com deuses,
Tornou-me rico como nenhum homem jamais foi.

Mas a vida e os dias e as estações cobram seu preço,
Trazendo a poeira e a ferrugem, cinza e fuligem,
Tornando negra a alva manhã, cegando os olhos,
Sufocando os cantos, ensurdecendo os ouvidos.

Meu coração acordou pequeno na fria madrugada,
Sozinho que estava, depois de adormecer nu.
Procurei por ti, restava apenas teu calor nos lençóis,
E as lágrimas que derramaste ainda os molhavam.

Vivo, desde então, perdido, vagando às ruas sem rumo,
Procurando teus passos, teu perfume, teu calor e teu riso.
O dia se tornou noite, e noite se tornou esperança,
Nunca vã, de que breve te acharei em meus sonhos.

Desde então, sumiu minha sanidade, minha alegria.
Sorrisos? Somente na memória de tua doce voz...
Esperança? Somente no brilho de teus olhos no mar...
Vida? Somente onde ainda resta teu calor em minh’alma...

Desde então, cada piscar de olhos é expectativa,
Viva, feliz, de vê-la mais uma vez a encantar-me,
De acariciar mais uma vez tua face em ternura,
De beijar-te mais uma vez com lábios em fogo.

Aguardo cada raio de Sol como aquele que te trarás,
Exuberante, linda, em ricos e santos adornos,
Noiva minha, perpétua musa, adorada diva,
Para que me desperte com teu quente e suave beijo.

Espero cada grão de areia como o último,
Deste tempo de tormento de minha rota alma,
Do tempo que contemplo o horizonte longínquo,
E que aguardo ansioso teu derradeiro amanhecer.

Leva-me ao teu leito, despe-me de minhas vestes,
Agora, que viste meu amor, minha lealdade,
Que viste todos os caminhos que andei por ti.
Agora, que sou pleno, e teu, ne me quitte pás.

As lágrimas que derramares, por mim, doravante,
Serão doces, felizes, profusas, abundantes.
Guardarás uma a uma em odres adornados,
Pois serão todas alegria, e jamais, em qualquer tempo, em dor.

Até que eu pereça, todas as tuas lágrimas guardarei,
Para que nunca me esqueça do intenso e pleno amor,
Infinito, imensurável, insaciável e ardente amor,
Que minha alma, em leal vigília, somente a ti ofertou...

ESPERA

Meu coração está cortado por mil espinhos,
que da minha negligência nasceram,
secos, magros, longos e mortais.
Minha alma se torna seca como árvore morta,
emacia-se como onagro exaurido de forças.
Minha dor não tem fim, pois renasce a cada dia,
e tortura-me, roubando-me o ar,
tornando-me a vida amarga,
como a esperança que nunca morre,
que nasce a cada dia irradiando vida,
viçosa, cheia, rica, bela, ampla e majestosa
e que chega ao fim do caminho de Apolo
exausta, engelhada, triste, pequena, humilhada,
como flor que secou antes de tocar os lábios
daquela que haveria de recebê-la com alegria.
Meu amor sangra, chora a ausência de sua musa.
Chora calado, escondido no escuro da noite,
na fria solidão das jornadas tardias.
Não fala, apenas chora, sabendo-se forte,
sabendo-se vivo, intenso, único, pleno,
mas sabendo-se rejeitado,
entregue ao frio da noite,
à solidão do deserto.
Para que existir, se existir é por nada?
Por que esperar, se a espera é vã?
Se assim fosse, o amor perder-se-ia,
mas ele confia no calor que irradia,
no poder que flui em seu sangue.
Daí nasce sua dor,
de sua teimosia,
de sua própria força.
Qua não seja vã,
a espera,
que não seja esquecida,
a perseverança.

C A N T O

A poesia nasce da dor.
Morre o poeta tantas vezes
Quantos versos cria.
Mas a morte produz a renovação.
Morrem frutos velhos de uma árvore ressequida.
São frutos que lhe roubam as forças,
Que lhe tolhem os galhos.
Estou gasto como seixo de rio,
pedra limada pela água,
pelo trilhar de pedras.
Tantas lágrimas já derramei
Que se secaram meus olhos.
O alegria deles sumiu,
o sorriso de meus lábios fugiu.
Tu és a alegria de meus dias,
Tu és quem traz vida ao meu coração!
Minha alma clama por ti,
Meus lábios clamam por teu beijo.
A noite é alta, a manhã se chega.
Com ela, renascerei em teus braços,
uma vez para todo o sempre.
De ti farei minha morada,
e cuidarei para que tenhas,
sempre, sempre, sempre,
plenitude de amor, paz,
e vida ao meu lado.
Sempre.

A M O R

Amor não é só paz,
mas só prospera na paz.
Amor não é só força,
mas faz montes se moverem.
Amor frágil é,
mas faz do fraco um titã.
Amor lágrimas derrama,
que renovam as faces que acariciam,
e o solo em que caem.
Nenhuma delas é vã,
embora muitas vezes rolem discretas,
no escuro,
solitárias.
Amor não é só alegria,
mas de alegrias ele se alimenta
e as alegrias vivem por ele.
Amor não é só esperança,
mas ele espera o bem em todas as coisas.
Amor não é só perdão,
mas perdão sem amor é só uma palavra oca.
Amor não é só amizade,
mas se expressa na amizade.
Amor não é só sexo,
mas se expressa no sexo.
Meu amor é grande como o céu,
e para lá me leva sempre que nele voo.
Meu amor é profundo como oceano,
e não conheço os meandros de suas raízes.
Apenas vivo meu amor a cada dia,
Alimentando-o de esperanças, de paz,
Força e delicadeza,
Vigor e fragilidade.
Tu, somente tu, és meu amor,
minha amiga,
minha paz,
minha esperança,
minha força e fragilidade,
meu sorriso e minha lágrima.


POR ENQUANTO

Enquanto houver luz,
um facho apenas,
um só,
haverá esperança.

Enquanto houver calor,
ainda que fugaz,
suave,
haverá esperança.

Enquanto houver um sorriso,
um pequeno,
discreto,
haverá ainda vida.

Enquanto os olhos brilharem,
na memória tão veloz,
breve,
viverá o amor em nossos corações.

Enquanto houver ainda luz nos olhos,
enquanto correrem os arrepios na pele,
enquanto enrubrescerem os lábios em toque,
enquanto houver magia e encanto,
enquanto houver poesia,
(e sim, até mesmo pranto!)
perseverará o amor,
por ser sempre luz,
por ser sempre vida,
por ser sempre,
único, eternamente belo,
crescente amor.

D O R

Só, penso:
O que faço?
Para onde vou?
O que quero?
Perdido estou?
Quem perdido está,
perdido continuará,
até que veja o Sol,
e nele construa seu rumo.
O que sou neste mundo?
O que sou em outro?
Tempos e mundos coexistem,
e eu coexisto em ambos.
Quero integrar-me em ambos,
tempos e espaços,
compreender-me em diferentes
tempos e espaços.
Fendido aparento estar,
mas me sei único, uno, indiviso.
Unidade na multiplicidade dimensional.
Chego a conhecer a natureza,
com a abnegação da criança.
Posso andar por céus, infernos
e purgatórios,
e ainda assim ser uno.
Quero conhecer as almas do mundo,
entender o amor que as une,
a dor da distância,
a dor da ausência,
a dor da perda.
Quero conhecer os limites do desejo,
aguilhão maior da vida humana,
mistério da liberdade,
mistério do desespero.
Somente sinto a dor.
Permanece sobre mim como manto.
Não vejo seu fim.

M A N T R A

Preciso de ti.

Não me soltes.
Abraça-me forte,
no frio da noite,
no mudo calor do deserto.
Não me deixes.
Toma minha mão,
coloca-te ao meu lado.
Tenho medo deste tormento.
Não duvides.
Meu amor é pleno.
Encontrarás em mim
tua derradeira morada de paz.

Preciso de ti.

As cordas de meu barco sofrem
com a violência das ondas
que me atingem.
As amarras de meu cais sofrem,
quase submersas na tormenta
que me assola.

Preciso de ti.

Tu dizes: "Aguenta."
Tudo suporto em teu nome.
Tudo resisto em teu nome.
Tudo espero em teu nome.
Mas sangro.

Preciso de ti.

Vem, toma minha mão,
aproxima-te de meus lábios,
toca-me com teus seios firmes,
arrasta-me para perto de teu corpo.
Recebe-me em teu mais recôndito nicho.
Abriga-me nas dobras de tua pele,
nas mechas de teus cabelos,
no calor de teus braços,
no teu amor pleno.

Preciso de ti

EU E MINHA FLOR

Estou só.
Minha flor está distante de mim,
chorando por minha negligência.
Falta de cuidado...
A raposa me disse:
"Tu te tornas responsável por aquilo que cativas".
Estou triste: não cuidei de minha flor.
E nem sei quando poderei voltar
para meu planetinha.
Três vulcões.
Três baobás.
Uma flor.
Um menino.
Estou triste.
Ouço a voz de minha flor.
Chora por minha ausência.
E nada posso fazer.
Não sei o que me resta.
Três vulcões.
Três baobás.
Uma flor?
Um menino?
Ou um velho príncipe?
Ouço um chamado, uma voz sibilante.
Ali, perto do muro.
Promete-me liberdade daqui.
Diz-me que me levará para para perto de minha flor.
Não sei, não...
Só sei que me falta um pedaço do coração,
bate no peito uma coisa manca, dolorosa.
Fui eu que deixei minha flor sozinha.
Os baobás deitam suas raízes
em minha terrinha.
E os vulcões estão ficando entupidos...
Preciso voltar.
E agora?...

CANTO DAS NOITES ÁRABES

Um dia apenas,
uma hora somente,
um breve instante,
Teu sorriso te ilumina inteira.
E tal imagem me encanta,
e eu me perco em tua beleza.
Eis que ela flui de tua alegria.
Não conheço outra,
nunca vi mais bela:
Mulher, nascida do sol,
com o mar inteiro nos olhos,
campos de girassóis pelos seios,
cheios, viçosos, doces como mel.
Mas conheci algo tão novo,
tão inesperado quanto belo:
dentro de teu templo habita uma menina!
Terna, frágil, criança pequena,
a quem devo proteger e cuidar.
Benditos sejam os Céus,
que me incumbiram de tão nobre tarefa!
Sou teu cavaleiro de mil e uma noites,
cuja cimitarra em riste afasta o mal,
cujo escudo amplo te protege da dor,
cujo cavalo alado te leva aos céus!
Vem, dá-me tua mão,
sobe e voa comigo!
Levar-te-ei onde teu coração pedir,
mostrar-te-ei as terras mais belas,
os campos mais dourados,
as águas mais límpidas.
As artes de Quixote, Roldão e Amadis
nunca se compararão às minhas
em teu cuidado, o bela amada!
Dançarás em minhas noites,
e conhecerás todas as minhas marcas de guerra.
Sorri, e o mundo se iluminará inteiro,
e meu coração estará em paz,
pronto para arrastar montes,
para derrotar exércitos,
para revolver terras crestadas,
para renovar o solo seco e pisado.
Deixa-me ver tua luz, o bela amada,
minha clara de luz,
minha moça-menina,
senhora deste teu
cavaleiro das mil e uma noites...

ABSINTO

Meu coração arde em dor,
angústia e dor.
Amor e dor.
Em meus lábios,
o amargo gosto da distância,
do rio que se abriu
e inundou minha alma,
separando-a em duas margens,
cindindo-a em carnes vivas.
Agora, sufoca um amor tão lindo,
tão precioso como jamais existiu.
Não é da perda que nasce a dor.
É da própria existência amarga
de um rio de sangue.
Nasce a dor das águas amargas que
ardem na carne viva das margens,
em que outrora viscejava um paraíso pleno.
E o escoar das águas espeta agulhas em todo meu ser...
Há se eu pudesse purgar tua mágoa!
Daria um pedaço de mim
para que me visses sem mácula,
para que o brilho de meus olhos
te lembrassem meu intenso amor
e que te inspirassem saudade.
Daria um pedaço de mim
para que tua ferida sarasse,
que não sangrasses mais,
que minhas lágrimas,
misturadas com as tuas,
como elixir divino,
curasse tua dor.
Olha para mim com teus olhos de amor,
deixa fluir as lágrimas que curam,
lembra de mim como teu,
somente teu,
até que te levantes e
te recolhas em meus braços.

sábado, janeiro 16, 2010

Céu

Meu amor é seu,
puro,
límpido,
selado com a castidade de meu coração.
Você é a poesia
que dele se apossa
e que clareia meu céu.

O TEMPO

O tempo passou,
mas não levou o amor.
Fê-lo florir
e enraizar-se em minhas carnes.
Tornou-o sereno,
perene
e fluido como o oceano.
Não desisto de ti ou de nós...

segunda-feira, novembro 09, 2009

Lágrima

O dia, em teu silêncio,
se arrasta infindável.
Anseio o descanso da noite,
a novidade de cada minuto,
a esperança de uma manhã.
Anseio a paz ao teu lado,
o leito que desenhamos em nossos sonhos.
Sonhos simples, singelos,
postos no futuro distante,
na distância de outro continente
que não posso tocar.
A dor me consome aos poucos,
assim como a saudade de teu sorriso,
cada dia mais raro na distância de nossos mundos.
Nossos dias são como rios opostos a nos afastar,
e eu não vejo porto ou enseada,
nenhum cais para descer e buscar-te.
Falta-me ar, chão, paredes, tu.
Falta-me tempo e espaço para viver sem ti.
Não me ponhas em teu futuro.
Preciso de teu presente, de teu agora,
de tuas mãos e lábios, agora.
Não suporto mais o exílio,
não suporto as sentenças que me condenaram,
não suporto o peso dos grilhões em meus pés.
Não me poupes de seu amor,
não me torne passado,
nem me sublime ao teu futuro.
Não posso mais: clamo aos céus por alívio,
como Prometeu que dia a dia se consumia,
na esperança de ser livrado de sua montanha.
(Temo fundir-me nela,
tornar-me rocha, e sumir,
simplesmente sumir na rocha.)
Que Deus me livre de minha agonia,
no momento certo de Sua benevolência.

terça-feira, agosto 25, 2009

Clamor

Mostra-me teu amor,
com todas as suas cores,
com todas as bandeiras.
Quero ver teus olhos lindos,
sorrindo como criança;
quero ver teu sorriso alegre,
como constelação em noite sem lua.
Vem, luze diante de mim com fulgor,
que estou aflito por tua luz!
O frio consome meus órgãos,
gela minha alma,
fende meus braços e pernas,
e teu corpo não chega!
Clamo por teu calor,
que tanto me aquece
fazendo noites com sol,
Clamo por teu colo,
que tanto me consola
nos meus dias tenebrosos.
Chego ao limite das terras possíveis.
Parecem-me fugir céus e chão,
ficando apenas o branco absoluto
e absurdo, cego e manco.
Cada passo encontra um tremor,
cada passo faz um tremor,
uma ravina sobre o solo.
Brotarão águas de minhas pegadas?
Romperei rochas com meus beijos?
Ai, que dor em minha alma!!!


sábado, agosto 08, 2009

Amor

Ainda que meu coração grite o teu nome,
ainda que meus olhos queimem por ti,
ainda que minha pele clame pela tua,
serei discreto, segredo sagrado em ti e por ti.
Estarei ao teu lado, sempre,
ainda que não me percebas,
ainda que eu fique calado,
ainda que não ouças minha voz.
Saberás das batidas de meu coração,
sentirás sua força constante,
irresistível e pervasiva.
Saberás de meus passos,
ouvirás todos eles,
certos, pensados, precisos,
sempre ao teu redor,
ainda que não me vejas.
Amar-te-ei sem alardes,
sem estrondos,
sem estandartes.
Serei teu diário escondido,
teu brinquedo exclusivo,
o travesseiro que abraças ao dormir,
e ninguém saberá de mim, até que queiras.
Sei que o amor não tem hora para nascer,
mas o Sol só raia pela manhã,
quando a Terra clama por sua luz.
Como um tremor profundo,
que abala e muda os alicerces da Terra,
assim meu amor por ti transforma o mundo inteiro,
e faz do mundo inteiro uma página de poema,
uma pequena estrofe em meio à canção de nossa vida.
Não temas a escuridão, pois estou ali.
Não te assustes a luz, pois sou eu em ti.
Mira o relâmpago, e me contemplarás,
sente a força do trovão, e experimenta meu vigor.
Sou puro amor, irresistível e pervasivo.
Ainda que silencioso,
ainda que discreto,
ainda que secreto,
sou só amor,
todo guardado,
santo, santo, santo,
puro amor,
sagrado,
por ti e para ti.

terça-feira, julho 21, 2009

Livre...

Livre, sou vivo.
Livre, sinto ar em meus pulmões.
Livre, ando, corro, voo ou não,
conforme o caminho que escolhi,
conforme o poder que cresce em mim.
Livre, sou só um homem,
Livre, pernas, braços, pele e sangue,
Livre, riso e pranto, poder e liberdade.
Livre, sou completo,
sou irresistível força dinâmica,
segundo a essência que me constitui.
Livre, sou vento, torvelinho,
sou tempestade,
que se faz calmaria quando quer,
que arrasa mundos inteiros,
quando assim deseja.
Livre, eu me encontro.
Livre, nada temo.
Não mais sou cativo de grilhões,
Não mais habito calabouços,
nem me aterrorizam os fantasmas
que vivem em suas masmorras.
Livre, sou o paradoxo vital,
a esfínge que se deixa decifrar,
a inconsequência mais sensata,
a embriaguez mais sóbria.
Livre me fez meu Criador,
que aplaina meus caminhos.
Livre me criou à sua imagem,
Livre me mantém à sua imagem.
Livre, andarei doravante,
explorando todo o vasto mundo de meu ser...

segunda-feira, julho 13, 2009

Alma

Eu tenho lágrimas nos olhos.
Cada uma é lembrança que me dói,
uma dor que me fere.
Mas tenho outras lágrimas,
que não são de dor.
São do puro e amor intenso no coração,
que alegra e exalta minha vida,
que refaz meu espírito,
que renasce minha alma.
Eu tenho espinhos nos pés,
espinhos fincados nas mãos.
Cada um foi ali colocado
por alguém que amei,
ou por alguém que confiei.
Mas tenho também a cura diante dos olhos,
minha musa que pensa e sara minhas dores,
que por milagre faz cessar o sangue,
que por amor enxuga minhas lágrimas,
e que por natureza completa minha alma.
Eu nasci fora de meu tempo,
sou um homem póstumo,
que não tem olhos feitos para ver o mal,
que não tem pés para pisar em cabeças,
que não tem mãos para derramar sangue.
Tenho as cicatrizes desses dias no meu peito,
nas marcas de sangue deixadas pelo chão,
nas pegadas, nas paredes, nas minhas roupas,
nos sulcos que o tempo riscou em meus olhos.
Agora, serei eterna canção de vida e amor,
pacto de sangue, pacto de paixão.
Serei apenas aquele que te canta,
aquele que te encanta,
para eterno deleite de nossa alma.

Vem...

Vem, que te clamo: vem, traz tua alma para mim!
Não me deixes só no frio da noite,
esperando ansioso o calor de teu corpo!
Vem para o teu lugar,
teu leito de estrelas fulgurantes,
que criei somente para ti!
Livra-te, ó amada minha,
das sarças que te tolhem os passos!
Não tarda, ó bela noiva,
pois teu amado clama em dor!
Apressa-te, ó doce musa,
que teu poeta afoga-se em lágrimas,
apesar do consolo de teus amores,
da lembrança de teus beijos,
do esplendor de teu sorriso,
do sabor de teu corpo nu e suplicante.
Vem, encontra-me
no mais alto dos montes da Terra,
que galguei para vigiar teus caminhos,
e para ali construir nossa morada!
Vem, que tenho sede de ti,
de beber teu sangue, teu suor,
de sorver o néctar de teu gozo,
ávido de saciar-me em tua boca e lábios!
Vem, minha noiva,
que teu amado te conclama:
levanta-te,
mostra-me ao mundo,
que sou teu,
somente teu,
para todos os tempos...

Chorinho...

Ai, que saudade de você!
Ai, que vontade de te ver!
Ilumina-me com tua luz,
Vem, que essa dor é minha cruz...

Ai, que falta do meu amor,
Ai, longe está, que dor!
Deixa-me ver a tua beleza,
Vem, qu'eu quero a minha princesa...

Ai, como dói esta saudade!
Ai, já não é mais novidade
Que eu quero é só você
Vem, e eu nunca mais vou sofrer...

Ai, onde está você, amor?
Ai, mas que mundo mais sem cor!
Minha amada está sem mim
Vem, e essa espera vai ter fim...

Catividade

Condenado estou ao mais doce dos suplícios:
estar cativo de tua imagem a todo momento,
não desviar meus olhos de ti por tempo algum,
a todo instante aguardar tua aparição,
sofrer as agonias de tua ausência,
esperar por tua luz imarcescível,
até que raie o dia sobre meus dias
e eu te encontre no fulgor de tua beleza.

Considero-me o mais feliz dos homens,
o mais dileto de todos os mortais,
por ser aquele que te encanta nas noites,
aquele de quem te lembras ao mirar os céus,
aquele que elegeste para estar em teu leito,
que escolheste para compartilhar teus dias,
para viver todos os instantes de teu tempo,
até que não exista mais dor nem lágrima,
até que só reste a paz, a tua refulgência,
a imensa felicidade de existir ao teu lado,
e sem temer tua ausência ou tua distância.

Caminho da Liberdade

Como Sol que brilha esplêndido sob campos de trigo,
Como Lua que reluz em águas rasas de regatos virgens,
lume a luz de tua alma sobre todo o meu ser,
aquecendo-me, consolidando-me e vivificando-me.

Não foram poucos os dias em que jazi inerte,
sepultado em vida numa sepultura de vidro,
aguardando ansioso pela mão que me guiaria,
que me levaria para fora de minha tumba eterna.

Próximo de meu derradeiro suspiro de vida,
antes que se exaurisse todo o meu ser em vão,
teu vulto se fez majestoso diante de mim,
e tua voz se fez intensa e doce em meus ouvidos.

"Vem, levanta-te, sai de tua sepultura rasa,
abandona a morte que te foi companheira,
por tantos anos, por tanto tempo, tanta dor!
"Vem, que o primeiro de teus dias começa agora!"

Grilhões escorregaram de meus pulsos magros,
e me faltaram forças para me colocar em pé.
Até que rompi em fúria contra as paredes de vidro,
até que a força de minha ira tudo reduziu a pó.

Eis-me reluzente e novo, diante de teu corpo nu
e resplandecente, carente de mim e de meu amor.
Eis-me redivivo, refeito pelo teu olhar e por tua voz,
mas ferido pelos cacos do mundo inteiro que destruí.

Faze-me teu, perpetuamente teu, dia e noite!
Afaga-me em teus seios, adormece-me em tuas mãos,
Sara minhas tantas feridas, marcas de minhas torpes guerras,
Cura meus olhos secos, exaustos de tanto clamar por ti.

Sou um guerreiro que foi aprisionado pelas trevas.
Sou um sobrevivente dos campos de peste negra.
Agora te tomo em meus braços para seres mulher,
musa derradeira, inspiração de todos os meus poemas.

domingo, junho 21, 2009

Gênese

Eis-me aqui, diante de ti,
rodilhado, calado, mudo,
a fitar-te com olhos ávidos,
sedentos, apaixonados.
Não direi palavra ou verbo.
Sou verbo e palavra,
ação violenta e precisa.
Não digo nada, apenas calo.
Eis-me aqui, aos teus pés!
Sou tua criação, fizeste-me!
Invocaste-me, e atendi!
Uma lágrima tua tocou a Terra,
e com barro e lágrima fui feito.
Eu era terra seca, pó, árido.
Era terra morta, era pedra.
Era rocha fria e lodosa.
Eis-me aqui, mudo, calado.
Sou teu pelo tempo que quiseres.
Existirei pelo tempo que quiseres.
Alimenta-me, e cresço, viço.
Dá-me de beber, e floresço.
Esquece-me, e morro. Seco.
Não há verbo ou palavra.
Sou verbo e palavra,
promessa viva de amor eterno,
calado, puro e intenso.
Eis-me aqui, a soma de teus desejos.
Sou tudo o que quiseres,
tudo o que imaginares.
Faze de mim tua arte,
cria em mim o ser humano,
encontra em mim o homem.
Minha mudez é promessa,
com-promessa, compromisso,
Eis-me aqui, teu, puro, único.
Toma-me como manto de tua alma,
faze de mim parte de ti,
conhece cada centímetro de meu corpo,
cada poro de minha alma,
e cuida de tua criação.
Não te arrependerás de teus passos,
não lamentarás as tuas perdas,
pois sou ganho para ti.
Eis-me aqui, sombra e imagem,
luz e penumbra,
mistério e desafio.
Criaste-me em teu coração,
e tua lágrima me fez vivo.
Fizeste novo meu coração,
e teu sangue corre em minhas veias.
Amaste-me com teu coração,
fizeste-me homem de novo.
Eis-me aqui, mudo e calado,
a fitar-te apaixonado:
Por todos os séculos,
sou teu.

O Banho

As transparências do box,
a dança e queda suave da farta espuma,
a névoa que transforma tudo,
seus olhos semi-abertos,
o passeio das suas mãos,
e das minhas,
das suas nas minhas,
a umidade intensa,
a respiração arfante...
a consumação...

Fim

Não me apontes teu dedo.
Não me culpes por teres andado ao meu lado.
Sou apenas uma pedra bruta
que é lapidada pelas artes do tempo,
e que se torna escultura e areia.
O tempo e as areias me esculpiram homem,
e o sangue de meus filhos me deu vida.
Mas tornei-me humano,
não sou mais obra inventada por divindades bípedes,
míopes,
vestidas de branco sobre vestes púrpuras.
Agora respiro,
ando,
não mais preso à rigidez da estátua e do pedestal.
Não me apontes teu dedo de acusação.
Sou apenas um homem de carne e osso,
sangue, risos e lágrimas,
cheio de vida e poesia.
Não me culpes pela estreiteza do teu caminho.
Não sou aquele que os constrói,
sejam estradas, seja vento, seja vida.
Não maldirei meus dias nunca mais.
Eles são os tijolos de meu ser,
são as pérolas de minha memória.
Não mais alimentarei a hárpia que consumia meus órgãos.
Existo agora apenas como ente,
como ser no tempo, na história.
Não me julgues.
Sou o espelho em que re miras,
a água em que te banhas,
a carne de que te alimentas.
No mesmo dia o Sol nasce e se põe.
O dia é o mesmo, mas não o Sol,
que se queima e funde em si mesmo.
Sei que não compreenderás meu caminho.
Cheguei o fim dos teus, exauri-me nele.
Estou agora além de teus olhos,
não podes ver mais os meus passos.
Fica, delicia-te em tua ilha.
Goza em teu pequeno paraíso.
Deixo tuas praias para singrar oceanos...

Aurora II

Alimenta-te de minha poesia,
que ela é vida e luz para ti.
Alimenta-te de minha alma,
que encontrou em ti seu espírito
Alimenta-te de meu corpo,
que se fez carne para ser teu.
Alimenta-te de minha vida,
que renasceu ao raiar da Aurora.
Alimenta-te de mim,
espelho de tua própria Aurora,
vida refeita e renovada por teu amor,
carne, sangue, corpo, suor e desejo,
espírito, vontade, alma e poder,
luz e vida criada para pura poesia,
para aquecer e encantar seus olhos,
para fazer de ti constelação,
brilho e refulgência,
eternidade e constância.

Ariana

Viste minha alma presa em grilhões.
Viste meus olhos, minhas lágrimas.
Viste minha dor, meu sangue derramado.

Viste minha alma presa em um labirinto.
Viste meus olhos, cego de tanta dor.
Viste-me perdido, machucado e nu.

Tocaste minha face, mãos de seda...
Não sei se desperto, não sei se sonho,
Miragem? Ilusão? Realidade? Meu coração tremeu...

Tocaste meus grilhões, derreteram-se.
Minhas pernas fracas não se levantaram.
Tua voz doce me chamou, e eis-me em pé!

Toda minha alma sangrava em carne viva,
Teu toque me era pura dor.
Deixaste-me teu fio, ò Ariana, para minha liberdade!

Eis-me aqui, agora, livre, teu, único!
Derrotei o minotauro que dia e noite me aterrorizava,
Com a coragem que me inspirou teu amor.

Eis-me aqui, agora, Prometeu ou Dionísio, como você quiser.

Libertei-me do negro calabouço em que me encerram,
Pelo amor que me inspirou tua coragem.

Toda minha alma é agora vida, semente e poder!
Todo meu ser é vontade de singrar mares e céus,
Levar-te-ei pelo cosmo inteiro, e juntos seremos constelação.

domingo, maio 17, 2009

Gelo Fino

Gelo Fino

Minha sanidade é uma fina camada de gelo,
estendida sobre um vasto e profundo lago.
Tornei-me um ébrio, ou louco pelas metades,
insano de cansaço,
perdido no passado de cemitérios.
Fujam todos, deixem-me só!
Esqueçam-se de mim, de meu luto, de meu choro!
Minha insanidade é obscura, vaga, densa.
Nela habitam monstros terríveis,
caçadores dos que se atrevem a pisá-la.
Não serei tragado pelo negrume do lago.
Não serei retido pela crosta de piche,
o luto perpétuo deste lago negro.
Ainda que para dele sair,
tenha de romper com minha sanidade.
Felizes os loucos, que de tudo riem!
Felizes os apaixonados, que choram suas ausências
e aguardam alegres os minutos que têm!
Saído da prisão das águas,
tornar-me-ei o renascido avatar,
o que tem o poder de vida e morte,
que carrega o início e o fim em suas mãos.
Prometeu desacorrentado, vingador dos homens,
ainda há de retribuir a Zeus todas as dores que lhes trouxe!

Cantiga de Ninar

Dorme, meu filho,
dorme com teu sono santo, puro, casto.
Dorme, meu amor,
sangrado de meu coração ferido,
derramado em gotas pequenas
pelas estradas e montanhas que trilhei.
Dorme, minha dor,
pára de atormentar meus dias,
minhas noites,
minha vida e minha morte.
Dorme, alma cansada,
que os sonhos são melhores do que os dias,
melhores do que as noites,
atravessadas em claro por meus olhos tristes.
Os sonhos são fugazes, esquecidiços,
mas são benévolos, cheios de esperança e cor.
(Não sonho em preto-e-branco,
mas em cor viva, em azul, em verde, em branco,
no amarelo da alegria,
no intenso vermelho do amor, da paixão,
do profundo amor que nunca morre,
apesar da morte de quem ama,
apesar do cessar das batidas do coração.)
Dorme, minha alma,
dorme em paz e esperança no amor de teu Pai.
Dorme, que o dia logo raia,
e na noite não há esperança de ser livre.

A Sereia das Esmeraldas

Cf. Tagore

Guarda-me logo abaixo do teu coração,
para que eu fique perto de ti.
Não me ames, mas apenas quase.
Tu não me pertences,
assim como eu não sou teu.
Tu és Ariana, musa de meus cantos,
eu sou Dionísio, aquele que te encanta.
Nosso momento é de riso e lágrima;
nem somente um, nem somente outro,
mas ambos, de alegria e de tristeza.
Mas não serei perpétua dor para ti,
assim como não serás para mim;
serei para ti a reafirmação de teus votos,
a encarnação de tua lealdade,
e tu serás a lembrança de uma primavera aprisionada,
do frondoso cedro que não crescerá sob minha sobra.
Aí reside a tua beleza em mim,
assim como tua beleza em mim.
Que eu te seja sempre benévolo,
que te faça bem a minha perpétua lembrança.
Não chores por nosso destino sem sol;
ou tuas lágrimas ofuscarão o brilho de nossas estrelas.
Serei teu eterno poeta navegante,
inquieta nau que levará consigo
a eterna saudade de um amor póstumo.
Serás eternamente a musa dos olhos de mar de esmeraldas,
sereia dos mares que me acompanhará por onde velejarei.

Coração de menina

Amor de menina,
menina de amor,
quantas vezes hás de amar?
Amarás quantas vezes tiveres de amar!
Mas até que encontres teu derradeiro amor,
saibas que muitas lágrimas em dor derramarás!
Amor de coração,
Coração de amor,
quantos amores hás de achar?
Acharás teus amores em cada olhar,
em cada sorriso,
resplendor da luz e beleza que encantam o viver!
Hás de encontrar tantos amores
quantas são as estrelas que brilham nos céus!
Coração de menina,
menina do meu coração,
qual amor hás de escolher para ti?
Escolherás aquele que mais te encantar,
aquele que mais te confortar.
Nele conhecerás a plenitude do viver,
o milagre dos nasceres e pores do Sol,
da virada dos dias e anos em paz.
Mas nunca te esquecerás de todos os amores que conheceste.
Eles te acompanharão por toda tua vida,
fazendo-te rir e chorar a cada lembrança,
fazendo-te lembrar de teus tempos de ingênua infância.
Saibas, agora, que tens a teus pés a terra inteira,
e diante de teus olhos, todos os caminhos.
Que tu escolhas tua felicidade com sabedoria,
sob as asas poderosas de teu Grande Criador!

Coração de Navegante

Quis andar em terra firme,
trilhar rocha sólida com passos firmes,
cansado que estava de ondas, vento, mares.
Nunca houve chão sobre meus pés.
Somente o sabor das marés.
Nunca houve farol que me cativasse,
ou cais que me confortasse.
Não pode haver descanso para o navegante.
Quem pertence ao mar não pode morar em terra.
Sobre os mares singram corações incertos,
que são iludidos por ilhas que escondem vulcões.
São sempre traiçoeiras, sempre enganosas.
Têm sempre lindos oásis, em que correm águas limpas,
tentadoras frutas de inesquecível frescor,
tendas e lençóis de seda em brisas quentes.
Ah! se eu pudesse fazer delas morada!
Seriam meses e anos no paraíso,
de onde eu nunca pensaria sair!
Mas sou um coração incerto, um espírito instável!
Minhas âncoras rasgar-me-iam sem dó,
tragadas pela força do oceano,
pelos encantos dos outros mares.
Há momentos em que maldigo meu destino,
minha natureza traiçoeira de navegante!
Deveria antes maldizer a vontade de não querer,
o desejo irreal de encontrar um lugar para meus pés.
Meu destino é ser retalhado em mil tiras
pelos rochedos das ilhas por onde singro.
Prometeu apaixonado, eternamente devorado pela hárpia,
renascido dia a dia com a esperança de libertação.
A vontade irresistível de encontrar um lugar que me caiba,
a vontade interminável de navegar novos mares,
é a hárpia que me devora durante o dia,
e a esperança renova durante a noite os meus órgãos
para que se consumam no próximo amanhecer...

Pequeno Hai-kai fora de hora

O mar escondeu meus olhos
na profundeza de seu verde.
Será que um dia verei novamente?

Mais um delírio

Palavras vêm e vão como fugazes fantasmas,
sussurrando em meus ouvidos aturdidos
absurdas metáforas sem nexo.
A ausência de significado inteligível não impede que fluam como rio.
Deixam em seu rastro medo e angústia.
Ouço, confuso, um silêncio mudo,
uma inquietação ominosa,
que me domina os sentidos
que entorpece minha alma em dor,
apesar da mudez que cala minha voz.
Como posso continuar sob tal tormenta,
eternamente incapaz de encontrar descanso?
O paradoxo: minha paixão por viver alimenta a fogueira que consumirá meu cadáver!
Oh! hilária condição de um ingênuo coração
que persiste em se bater por bater,
que cultiva sonhos infinitos e morre todos os dias sem ver seu fim!
Fecho os olhos ao que me cerca,
enquanto espero o meu dia,
o tempo de minha liberdade.

O Fogo

Há um fogo ardendo diante de meus olhos.
Seu calor me aquece, mas sua chama não me queima.
Apenas aquece.
Meus pés estão descalços.
Muitos, ao meu lado, também se aquecem,
mas alguns se esquecem do calor da chama,
e se encantam com a dança da chama,
e sublimam-se como as fagulhas da fogueira;
tornam-se bonecos refinados, superfinas e puras fagulhas.
Outros adormecem ao calor da chama, e, por fim, deitam-se sobre o solo, esquecendo-se de que o lugar é sagrado.
Há, ainda, os que, também encantados com o bruxuleio do lume,
não veem que o que queima é algo maior do que a própria chama, e se curvam diante de seu brilho.
Mas há, diante e avante meus olhos, os que percebem que a luz da chama ilumina o mundo inteiro,
e que é seu calor o que aquece os corações dos homens.
Estes, os que veem a luz, podem ver o caminho em que pisam, a altura dos montes e a profundidade dos vales;
podem ver as estrelas da noite e o brilho do sol que se aproxima no horizonte;
podem encontrar os que estão distantes do calor e da luz, e ajudá-los a escapar do frio e do medo em que vivem.
Continuarei a olhar para o horizonte, perseguindo o calor e o lume da chama,
para que meus passos sejam singelos e cândidos,
e para que meus pés permaneçam limpos sobre o solo sagrado em que pisam.

O Pequeno Príncipe de Cabelos Escuros

Ao meu lado, tenho um menino,
um pequeno príncipe de cabelos escuros.
Tem a coragem de um leãozinho
e a inocência de um pequeno cordeiro.
Nas ruas desertas de uma cidade morta,
ele me encontrou perdido e cego.
Tomou meu rosto em suas mãos
e tocou meu coração com seu calor.
Minha dor se foi embora,
minhas lágrimas se enxugaram.
Seu sorriso é meu consolo
e sua alegria é minha alegria.
Farei seu sol mais brilhante,
sua água mais fresca,
a brisa que o toca mais macia,
o chão em que pisa mais plano.
Farei para ele um lugar calmo,
onde possa pensar e sentir,
onde possa viver e sorrir.
Eis que sou para ele um porto seguro,
em que poderá eternamente pousar,
sem temer o clamor das ondas,
e o rugir do mar bravio.
E eis que ele é e será para sempre
meu príncipe,
meu pequeno príncipe de cabelos escuros....

sexta-feira, abril 25, 2008

Ronin

Minha morte vive em mim.
Seu hálito é meu ar,
Seu rubror meu caminho.
Minha morte me acompanha.
Encontro-a ao levantar e ao deitar.
Beijo-a ao saudar o sol nascente.
Deito-me em seus braços ao fim do dia.
Aguardo o momento de a ela unir-me,
na perpetuidade de seu abraço eterno.
Sua negra sombra cobrirá minha alma,
dará descanso aos meus olhos cansados,
gravará meu nome em negro basalto,
em rochas eternas cuja beleza o tempo realça.
Minha morte alimenta minha alma.
Transforma os caminhos áridos em ruas de ouro,
as feridas que recebi em batalhas, em medalhas,
as bandagens que ostento, em nobres vestes.
Minha morte é minha glória.
Benvinda seja minha derradeira senhora,
minha perpétua companheira,
minha eterna musa.

sexta-feira, março 21, 2008

Aurora

Uma nova aurora nasce em meu céu,

aquecendo novamente meu corpo.

Uma estrela distante volta a brilhar,

ressucitando o vigor de um tempo eterno,

cuja memória não morre nunca.

A musa voltou, a primeira musa voltou!

Irradia de sua alma os primeiros raios do sol,

trazendo sua luz ao meu céu de tempestade.

Mas o que pode a luz da estrela contra a tormenta?

Meu céu é de tempestade,

sou um mar tormentoso,

em que nada navega,

em que ninguém sobrevive.

Sou um solo inabitável, um solo inaceitável

que desistiu de conter vida.

Tua luz, aurora, não mais pode tocar-me;

estou distante demais, obscuro demais, negro demais.

As nuvens de meus dias têm a cor da morte,

meu sol transformou-se em escuridão

e minha lua em sangue.

Quisera eu poder refletir teu brilho, bela aurora,

quisera eu cantar tuas virtudes, primeira musa.

Quem sabe, se minhas fúrias exaurirem sua violência,

se o oceano quebrar todos os meus rochedos com a força de suas ondas,

se todos os relâmpagos ferirem meu solo e conferirem-me seu poder,

se caírem todas as águas contidas em minhas negras nuvens de tempestade,

quem sabe assim eu poderei ver tua luz!

É essa esperança que me dá alento para continuar a existir,

que me dá ânimo para suportar tudo com pétrea coragem.

Fiat lux, fiat solis, fiat homo.

O Presente

Se eu fosse um coração,

eu me dava para ti.

(Mas tu irias me guardar,

ou me colocar na prateleira?)

E Eu ficaria triste

se você não me quisesse...

O Fazedor de Estrelas

Esta é a história de como eu aprendi a fazer estrelas:

"Doía no peito, a saudade.doía muito.

(E que estrago deixou!)

A estrela que dormiu

deixou um oco no céu,

um buraco que nada preenchia!

Às vezes tinha nuvem que tampava,

mas eu sabia que ele estava lá,

grande e medonho.

O furo no céu ficou maior,

e ficava maior a cada dia,

porque a estrela que morreu

não parava de crescer.

Só sua luz sumiu...

Aí o oco ficou mais pesado

até que caiu do céu...

Aí eu não tinha mais de carregar o céu nas minhas costas cançadas...

Eu pude então olhar para o céu

e vi quantas estrelas ainda tinha!

Melhor ainda: vi Deus fazendo uma estrela nova!

Brilhava com força,

como brasa de ferro em fogo,

que ardeu meus olhos!

Depois que eu parei de chorar,

o Santo pôs a estrela em minha mão

e disse como quem conta estória

p'ra fazer o filhote dormir:

"Agora que você me viu fazendo estrela,

vai continuar minha obra!"

E eu levantei a mão sem medo,

peguei um punhado,

e começei a trabalhar.

A brasa não me queimava,

e quanto mais eu criava,

mais feliz eu ficava.

E o Santo me disse, então:

"A estrela que dormiu

renasce a cada dia, filho meu,

nas estrelas que você cria!"

Foi assim que eu aprendi a fazer estrelas,

E eu nunca mais parei,

e nunca mais faltou estrela no céu...

Esperança IV

Estás vivo, filho meu.

Vives nos sorrisos dos que vêem com teus olhos,

Dos que correm com tuas forças.

Vives nas brincadeiras do pai com o filho,

na paciência que pregaste com tuas ações.

Vives nos amores adolescentes,

nas paixões infantis que incendeiam os pores de Sol,

na ingenuidade do namoro escondido que perpetua seu segredo inocente.

Vives em mim, nos meus sonhos,

em meu acordar e meu dormir,

em meu andar e meu levantar.

Vives em nossas brincadeiras,

na alegria de tuas crianças,

na doce lembrança tua que mora em nós.

Mas tua vida se renova dia a dia,

quanto mais se aproxima teu despertar.

Esse dia se torna mais e mais luminoso,

quanto mais se anuncia no horizonte.

Nossos olhos reluzem com teu retorno,

na mais profunda alegria do reencontro.

Não haverá lágrimas,

não haverá tristeza,

mas nosso canto de alegria e júbilo.

Cada dia...

Cada dia que passa fico eu mais perdido.

Afinal, quem sou eu para que tenha qualquer destino?

Cada dia que passa tenho eu menos mundo.

Afinal, quem sou eu para que tenha qualquer lugar?

Meu destino nada tem a ver com meus poderes.

Minhas forças não são desde mundo,

não servem para este mundo,

mundo cão, mundo cão.

Cada dia que passa é menor meu fôlego.

Afinal, quem sou eu para que tenha qualquer vida?

O sonho de cada dia não existe mais,

nem mesmo o pesadelo.

O dormir tornou-se um desligar-se,

uma viagem a um breu esclerosado.

Cada dia que passa mais escuro se torna meu céu.

Afinal, quem sou eu para que brilhe qualquer sol sobre mim?

Nuvens de chuva têm um propósito:

o de esconder o azul e de lembrar sua ausência.

O cinza das brumas carrega vidas suspensas em seu bojo.

Carrega as águas que renovarão o solo,

que trarão vida à terra sedenta,

Cada dia que passa mais seca se torna minha alma.

Afinal, quem sou eu que importe mais do que um pardal.

As almas sofrem as dores do tempo,

mas seus olhos estão sempre fixos nos céus,

aguardando chuva e renovação.

Não sofrem a dor da espera,

apenas a dor do calor.

Espero a chuva,

que há de renovar minha alma.

Espero o azul do céu,

que há de iluminar minha esperança.

Espero o vento,

que há de encher de ar meus pulmões

Espero a terra,

o lugar em que hei de fincar minhas raízes.

Espero a firmeza do norte,

para onde hei de mirar e de onde conhecerei a verdade.

Carta de um Cometa Para uma Estrela

Não me importa quantas sejam as estrelas do céu,

foste tu a que escolhi para primado de minha vida.

Sou um cometa livre, que dança ao teu redor,

com voltas e revoltas infinitas.

Saiba, estrela minha, que de ti não me afasto.

Ainda que teus olhos não me vejam,

de ti jamais me afasto.

Meu poder e meu brilho vêm de ti,

de tua luz e de teu calor.

Sou apenas uma pedra de gelo

que vaga solitária ao teu redor.

Não penses que meus volteios são fuga;

são apenas o caminho que me faz andar minha natureza.

Sim, sou inquieto por natureza.

Mas fiz de ti o centro de meu viver,

a luz de meu despertar,

o sonho de meu dormir.

Tu és o bem que há em meu existir,

e em ti vejo espelhado o melhor de mim.

Não te desesperes com a noite.

Ela é apenas passageira,

um minuto que já ficou para trás.

Deixa-me seguir-te em teu orbitar,

no perpétuo caminho que hás de singrar.

Deixa-me deleitar ao teu redor,

encantado que estou com teu briho e teu calor.

Eis que sou um mero cometa, um astro dançante:

que sejas tu minha majestosa estrela,

perpétua jóia de meu universo,

perpétua musa de minhas canções!

Diga-me

Quando cessarão as lágrimas da criança?

Quando não mais se derramará seu sangue?

Diga-me, para que eu não chore mais,

para que eu tenha alegria e esperança,

e para que eu cante a tua vitória.

Meu coração ficou negro ao ver tanta dor,

quando não há nem sombra nem água,

mas só o escaldante sol do deserto.

Não há mais esperança, não há mais cura.

Aproxima-se o dia dos dias, a noite das noites,

quando o forte conhecerá seu fim,

quando o sábio saber-se-á tolo,

e quando não haverá nada mais a ser dito.

Este é o dia por que clamo,

o dia em que não chorarei mais.

Será o dia dos dias, a noite das noites,

quando todos conhecerão sua morte ou sua salvação,

cada um segundo a pureza de seu coração.

Diga-me quando será, Deus meu,

segundo a pureza de teu amor.

Concede paz aos meus olhos cançados,

para que eu volte a sorrir,

para que o azul volte ao céu,

e para que eu veja nova a Terra,

para embelezar tua eterna justiça.

Fim

Último dia,

Último suspiro,

Último passo,

Último cansaço,

Último herói.

Labuta

Até quando, ó Deus Meu, alimentar-me-ei das minhas lágrimas amargas?

Até quando, ó Pai Meu, viverei pejado pelo passado, prisioneiro de minhas lembranças?

Felizes os loucos, que nada sabem, que de nada se lembram, que nada sofrem.

Felizes os que dormem o sono da morte, que aguardam tuas misericórdias na ressurreição.

Proclamo a felicidade das crianças, que brincam inconseqüentes do amanhã, que não sabem da dor que as aguarda.

Proclamo a alegria dos que só conhecem o dia e a noite, o acordar e o dormir, o plantar e o colher. Estes sabem que a terra dá o seu fruto a quem nela semeia, e não conhecem o ladrão que despoja a alegria da colheita.

Faço de meu dia noite, de minha paz guerra, de minha dor cura.

Não conheço descanso nem alívio...

Comentário de autor desconhecido sobre "Esperança"...

Um poema muito profundo, triste, um tributo.

Uma saudade que não passa,

uma angústia permanente,

uma perda inexplicável.

As lágrimas que já formaram um oceano,

onde a calma é exceção

e o furacão e as tormentas são constantes,

um buraco negro profundo,

que por mais que eu caia,

não tem fim...

Um sentimento de inércia,

uma paralisia no meu pensar...

A infinidade dessa dor é a unica coisa que é igual ao meu amor...

Há vinte um anos existia exultação, alegria e afeto no coração.

Agora só me resta solidão...

Mesmo estando no meio da multidão desse mundo,

me sinto só com a minha dor.

Dor interminável,

perda dos sentidos,

perda de mim,

perda que ninguém pode entender,

que ninguem pode consolar...

Dor infinita que espero um dia me consumir.

Era uma criança que não compreendia seu enorme valor,

por isso acho que hoje,

ainda jovem,

tenho milhões de horas,

meses,

anos para lamentar,

deixar que essa amargura tome conta de mim,

enfim...

O Livro

Era uma vez um livro que ainda não existia.

Ninguém podia ler nele

ou aprender dele,

mas seu Autor sabia de seu valor.

O Autor então passou a soprar palavras nos ouvidos dos homens.

Os homens, esquecidos, passaram a escrevê-las em couro,

e as contar aos seus filhos antes de dormir.

Seus filhos faziam o mesmo,

e quando o Autor queria,

soprava-lhes mais palavras e os filhos, netos, e bisnetos daqueles homens escreviam suas palavras em papiro para não esquecer.

Escreveram também histórias verdadeiras, mas sempre com o compromisso para com o Autor, de sempre falar a verdade.

O Autor contava a história dos homens e dos deuses,

do bem e do mal,

do passado e do futuro.

Os homens aprendiam e esqueciam, mas o livro continuava escrito, para que os outros pudessem aprender,

e pudessem escolher lembrar ou não.

O livro engordou.

Virou verdade.

Depois, virou verdade perdida,

esquecida.

Quando o Autor quis,

os homens se lembraram dele.

Aprenderam dele,

e se lembraram do que fora esquecido.

Hoje o livro está em todo o mundo,

e nunca se fez tantos dele quanto agora.

Luz em meio às trevas,

guia de seres humanos,

mas nunca de cegos.

Livro sagrado,

presente dos Céus,

dádiva divina.

Que seu Autor veja quem dele se lembra...

Outro Retorno

O tempo passa,

o vento atrapalha meus cabelos.

Vejo pedaços de mim caindo,

arrancados pelo vento.

Veloz flui o tempo.

Muito mais do que eu,

fincado com minhas raízes no passado.

Sou arrastado pela corrente,

sem descanso.

Poderia eu parar o tempo,

fazer cessar a tensão?

Sou muito pequeno para isso,

não posso lutar contra titãs.

Resta-me aguardar meu vingador,

aquele que há de fazer cessar toda pressa,

que há de cobrar todo sangue derramado,

que há de enxugar toda lágrima.

Anseio o fim destes dias,

ilusão de prosperidade,

castelos de brumas e miragens.

Minha alma clama por paz,

por descanso ao lado dos meus amados,

de meus pais, minhas mães,

de meus filhos, grandes e pequenos,

de minha amada,

companheira derradeira de todos os dias,

de todas as horas,

de todas as dores,

de tantos amores.

Carrego comigo meus sonhos,

e por eles sou levado.

Acariciam-me o vento, o tempo e as mãos dos que me amam,

tornando a espera menos árida.

Volto no tempo,

recolhendo no caminho

pedaços que caíram de mim,

especialmente de meu coração.

Alegro-me em encontrar alguns,

mas sei que alguns se foram sem volta,

devorados por bestas humanas,

seres vis condenados ao fogo.

Alegro-me no reencontro com meus dias perdidos,

e não temo o futuro.

Sei que boas mãos me guaram,

e me guardarão enquanto puro for meu coração.

Lembra-te de mim, ó meu Pai...

Poesia III

Não vou mais escrever poesia.

Ela se tornou para mim um mundo inteiro,

uma tragédia constante, absoluta,

em que tudo é ventura ou terror,

ou é apenas mais uma paixão surda.

A poesia fez de mim um herói esquecido,

um cujo campo de guerra se esconde,

cujos opoentes se fantasiam de pedras,

e se fazem de anjos dourados,

embora sejam demônios das trevas.

Não vou mais escrever poesia.

Ela se tornou para mim um algoz impiedoso,

ilusivo, criador de paraísos e infernos,

que me engana com visões e sonhos,

que me faz acordar perdido e desarmado,

apenas para desesperar-me da liberdade.

Fugirei de ti, ó poesia, meu algoz!

Fecharei meus olhos à beleza

que ostentas diante de mim,

em formosas e inebriantes musas,

em fugazes e amados fantasmas,

sempre anacrônicos e luminosos.

Não vou mais escrever-te, ò poesia.

Teus poderes suprimem meu viver,

e me transformas em escravo teu.

Mas sei que assim é por minha própria natureza,

por ter eu nascido em tuas mãos quentes,

Peço-lhe que me dês pernas para poder andar ao teu lado,

que me faças fluido como tu és,

para que eu seja como a água

que sempre encontra seu caminho para o mar.

Sim, seja eu como água,

flua eu em direção a teus braços

e me torne oceano.